O MANIFESTO

Atuamos como cafeteria, fazemos café. 

De acordo com Tim Ingold no livro "Estar vivo: ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição"  o ser humano se distingue dos demais animais pelo que ele cria, o que somos coincide com nossas produções. Aqui podemos seguir dois caminhos: daquilo que se cria e como se cria.

Permita-nos adicionar outra característica, se todo ser humano é capaz de criar e produzir, somos também dotados da capacidade de discernimento para manter a vida, o instinto de sobrevivência nos força a entender qual é a energia necessária para criar o que precisamos. E é aí que a gente entra tomando café, e você conosco enquanto lê esse manifesto. Pegue sua xícara aí. 

Temos pressa. Nossa sobrevivência depende de lugares e pessoas que fazem das palavras a própria vida, não de mais outro storytelling que te prende a atenção por 5 minutos e te faz emocionar e ponto. Precisamos falar sobre o que a gente pisa todo dia: o solo. Toda a vida começa nele. A nossa energia para ter a capacidade de criar e produzir tudo o que for conveniente vem do solo.

A agricultura surgiu há 12 mil anos atrás, e foi o que permitiu o ser humano se estabilizar e criar as primeiras civilizações. Veja como tudo circula e move em volta da comida. Importante aqui dizer que para produzir comida precisamos de solo de qualidade, fértil, com vida e nutrientes abundantes. A grandessíssima maioria das civilizações não conseguiu ir adiante por questões com as plantações. Pragas, seca, enchentes, todo tipo de ação natural poderia ser um problema sem precedentes. A agricultura foi ganhando novas técnicas, descobriu-se modos de produzir para driblar os problemas, e cá estamos nós. Em 2021 todo mundo já ouviu alguma coisa sobre as mudanças climáticas, a temperatura que está aumentando, a chuva que não cai quando deveria, a seca, a geada, mas ainda não entendemos como que pouco se fala sobre o solo. 

A questão de hoje ainda é a comida. Aumentamos extraordinariamente a população mundial mas a fome ainda é uma questão. Talvez muito mais sobre distribuição, mas o que temos que nos ater nesse momento é que estamos em transformação. Somos poderosos aceleradores de tragédias por não entender nem um pouco do que a gente vive pisando, o berço de todas as plantas e de toda a comida que podemos pensar em comer - o Solo. 

Toda área de produção foi devido a um desmatamento, ao desmatar deixamos o solo exposto, o que é como uma ferida na natureza. Ao deixar o solo sem cobertura vegetal a temperatura do sol age aquecendo muito a superfície da terra. Seca a terra, mata microorganismos importantíssimos para a produção de matéria orgânica. As plantas que estão ali são tratadas como uno - toda e qualquer outra muda nova que aparece por ali é morta e limpa. O ambiente fica estéril, e aí a indústria do agronegócio usou a melhor estratégia: dizer que para continuar produzindo você precisa de fertilizantes, e para não ter pragas o correto é usar pesticidas. O famoso combo dos agrotóxicos foi ganhando importância e garantindo a produção dos alimentos, mas agora não dá mais.

Imagina com a gente, olha pra uma floresta, o que você vê? Ninguém chega lá e coloca nitrogênio, potássio e fósforo no solo 2x no ano, e o solo está nutrido, a umidade do ar é perceptível, as plantas estão crescendo saudáveis, as folhas secas no chão se transformam em matéria orgânica, tudo ali está vivo, verde, interagindo, vivendo e morrendo participando do ciclo naturalmente.

Agora olha para uma produção, seja do que for, em sistema de monocultura. Olha pro solo que você pisa ali, veja se ele está escuro, úmido e se existem minhocas indo de um lado pro outro? Te garanto que não. E essas produções estão fazendo um estrago imenso, segundo a ONU por ano a gente perde 12 milhões de hectares de solo devido a desertificação, as terras estão cada vez mais improdutivas. A opção de desmatar mais pra ter novas áreas de plantio só intensifica a perda de solo anual. A capacidade de criação do ser humano não pode ser o da substituição e destruição, sabe porque? Porque se não teremos que substituir o planeta ou o planeta acaba com a gente.

Bem, com essa introdução estamos certos de que seus olhos estão fixados na tela sem piscar. Pisque, é importante continuar respirando. A vida depende de nós e a nossa responsabilidade de trazer esses fatos é muito grande. Imensa, é também a nossa alegria de compartilhar o Bogo com vocês, porque nossas tomadas de decisões estão SEMPRE preocupadas com a mudança desse cenário. Dai sim, agora sim, entra o café, a sua xícara, a minha, a dos baristas, do torrador, e de todos nós do time Bogo. A empresa nunca vai deixar de ser humano.

O Bogo está na cidade de SP, num local de descompilamento da cidade. Estar na cidade e ter o urbano como outras peças do quebra cabeça fazendo parte, não quer dizer que estamos no sintético, vivendo e respirando algo além do que existe no natural. O natural, o campo, está em nós, em todo lugar, não precisamos forçar as características do natural num lugar urbano, não existe essa separação. O que liga o Bogo com o natural não está na cara, está na essência, está em sermos do jeito que somos. 

O que nossos parceiros produzem no campo, a vida dessas pessoas, junto com o que temos a oferecer aqui, é um reflexo do que o produtor tem a oferecer também. Nós desenvolvemos a cultura local urbana em SP que respeita e catalisa a qualidade e os alimentos dos seres humanos que produzem de forma a propagar e prosperar a vida. Porque crescendo no mundo, o mundo cresce em nós. 

É sobre o produto ser o reflexo de quem o produz. Estamos falando de ser humano, de que na vida todos temos a capacidade de criar e cuidar de algo. E fortalecer e tornar digna a vida de quem nos alimenta é um dever nosso, principalmente com os produtores locais. A agricultura familiar representa mais de 80% da produção consciente com as prioridades da natureza no Brasil. A dificuldade dessas famílias conseguirem seguir com formas de manejo alternativas são diversas, abrir o pote desses problemas é desenrolar um problema de estrutura social, burocracias, políticas e das próprias pessoas que estão acostumadas a caminhar de um ponto ao outro apenas atravessando. 

Nós do Bogo ao invés de atravessar e chegar do outro lado em algum lugar já transformado e mexido, estamos costurando. Costurar a trama que vai segurar a força do contra fluxo social/econômico para possibilitar ferramentas. Ocupar juntos e desempenhar o papel de apoio e soma de todas as trilhas que estão sendo desbravadas pelos pequenos. Os caminhos estão a todo o instante se cruzando, andando juntos enquanto for necessário para converter, imaginar e criar novos destinos que garantam nossa permanência. Um mundo com outros olhares que diminuam a quantidade de vezes que usamos a palavra ou, para uma possibilidade de integrar, com mais e

Estamos no mesmo tabuleiro, no mesmo jogo, não tem uniformes diferentes com cores que não combinam. Estamos vivos, respirando e com capacidade de produzir o que quer que seja, estamos aqui na cidade ou lá no campo com as mesmas vontades e pensamentos, o que nos conecta é mais do que consumir, comprar ou vender.

O consumo pelo consumo já nos abriu esse abismo ao qual estamos caindo. Por que compramos coisas a toda hora? Por que acumulamos tanto? Já viu a quantidade de lixo que produzimos em apenas um dia? Acreditamos que um ponto de observação, posto em movimento, oferece um caminho. O caminho é melhor quando a gente anda junto, e essas observações são aspectos factuais do nosso tempo. Frequentar lugares, comer, beber café, traz contextos que também oferecem por onde andar. O caminho da vida só faz sentido enquanto se está nele, andando, criando, observando, acelerando processos que falam sobre todos nós com dignidade. 

Talvez precisamos de um entendimento diferente do que é um caminho: as superfícies não estão todas definidas, nós podemos ainda criar. Nós queremos te convidar para um transporte desses processos que fazem parte do solo vivo, nutrido. Não é sobre andar através do que já está aí lançado ao mundo atual. É sobre levar adiante boas ideias e boas ações, frequentar o Bogo é ter certeza de estar livre de consequências pesadas. 

O artigo 5 da Constituição Brasileira diz "todos somos iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza (...)". Para todos sermos iguais não necessariamente os direitos e deveres devem ser aplicados de igual forma. Não está igual para todo mundo, nunca foi igual, nunca tivemos as mesmas possibilidades.

O urbano é rígido demais, parece um ambiente isolado no mundo, atravancado por muitas informações e consumir consumir e consumir assim sem vírgula mesmo, pra até cansar a leitura. A gente tem que resgatar as reais prioridades de um organismo vivo. Comer e beber é o que nos move, e o que estamos comendo e bebendo? O industrializado é um alimento padrão. Uma maçã que a gente compra pode ter o sabor um pouco diferente da da feira que você frequenta, mas ainda assim será uma maçã. Você vai reconhecer isso como maçã. Por que então que temos o mesmo sabor nos alimentos industrializados ao redor do mundo todo? 

Talvez precisamos de um entendimento diferente do que é qualidade de uma comida.  Primeiro vendo esse mapa de movimentos, observando onde está enrolado, onde transporta, onde transborda, onde tem um ponto, cade os caminhos e onde estamos prontos para abrir novos. Como fazer a qualidade ser parte da vida de todos, afinal, é sobre pessoas. É sobre pessoas antes mesmo de ser sobre café. Mas é sobre café também. E sobre vida. Estar vivo e em movimento. Aqui não cabem conclusões de um texto bonito, aqui cabem conversas e estratégias de mudanças. Estamos no meio do caminho, somos o meio do caminho em ação. Pra isso um café é sempre bem vindo.